
E é exatamente sobre isso que o
filme trata: como a universidade se comporta diante destas realidades
vulneráveis. No filme a figura da reitora é a antagonista da figura de um
professor de Cálculo, e neste caso (por incrível que pareça) o assédio moral
vinha da reitora, enquanto o professor fazia o máximo de esforço para que o
aluno superasse o seu bloqueio com a disciplina de cálculo (qualquer semelhança
com ICADS é mera coincidência). A reitora representava fielmente a universidade
que não admite aquele que não seja um “estudante pronto”, aquele que, se chegou
a Harvard, tem que ser o autêntico estudante profissional, totalmente e
exclusivamente dedicado à universidade, que, assim sendo, não deve esperar da
universidade nada além de bons e impessoais professores.
Assim que o estudante se vê
sozinho com o seu filho vai em busca do direito de morar num alojamento
estudantil, o que lhe é negado, já que as Repúblicas não foram feitas para pais
solteiros. Além de não receber este acolhimento material da universidade, o
aluno é constantemente desestimulado a permanecer na mesma. Afinal o “tipo
ideal” de estudante de Harvard jamais poderia ser alcançado por um pai
solteiro. E qual é a responsabilidade da universidade com isso? O que ela pode
fazer para incluir o estudante? Nada. Não há moradia, não há creche, não há
restaurante universitário, quase não há nem solidariedade entre os próprios
pares do aluno em questão.
Aí eu fico me perguntando: para
nós professores, gestores, o que significa um aluno que evade a universidade?
Nada, nem um número, porque nem nos damos ao trabalho de quantificar este
fenômeno (as vezes até torcemos por isso, para reduzir nossas salas).
Fui estudante numa época em que a
universidade quase nada oferecia, e mesmo tendo muito pouco já tinha o básico
que muitos jovens baianos ainda não tem: uma universidade distante apenas de
uma viagem de ônibus coletivo. Isso já foi muito no meu caso, e mesmo com todas
as dificuldades descobri (por conta própria) os meios para a minha “afiliação”
à universidade. Hoje, como professor, ainda acredito que posso colaborar de
alguma forma para que tantos outros estudantes descubram estes meios, que hoje já
são muitos, bem mais que a dez anos atrás.
Mas a questão não gira apenas na
oferta material dessa assistência estudantil, é preciso mais que isso, é
preciso disposição da universidade e de seu corpo permanente em acolher,
respeitar e orientar este ”universo diverso” de jovens que brigam com suas
armas para estar dentro de universidades, tão simbolicamente significantes como
é a nossa querida Universidade Federal da Bahia.
Recomendo o filme, péssimos
atores, montagem fraca, mas um ótimo pano de fundo para pensarmos a
universidade do século XXI, diariamente sacudida por aqueles que, no passado,
nem passavam na frente de seus portões.
Link do filme completo no Youtube:
Intensos abraços,
Nenhum comentário:
Postar um comentário